FCMS gasta R$ 1,06 mi em shows da Marcha para Jesus sem licitação

FCMS gasta R$ 1,06 mi em shows da Marcha para Jesus sem licitação jun, 23 2026

Quando Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) anunciou o contrato de R$ 1,06 milhão para nove shows da Marcha para Jesus, a reação foi imediata. A contratação, feita em junho de 2026, não passou por processo licitatório e envolve uma empresa evangélica sediada no Espírito Santo. O valor exato — R$ 1.060.000,00 — foi destinado especificamente às apresentações musicais que farão parte da programação religiosa no estado este ano.

A notícia, divulgada pelo Campo Grande News em 19 de junho, levantou suspeitas sobre a gestão dos recursos públicos culturais sob o comando do governador Reinaldo Azambuja, conhecido como Governador Riedel. Não se trata de um caso isolado. Nos últimos dois anos, a fundação tem sido alvo de críticas por repasses milionários a empresas de música gospel e sertaneja, muitas vezes sem concorrência pública.

O padrão das contratações diretas

O problema vai além desse último contrato. Um levantamento feito pela imprensa local revela um fluxo constante de dinheiro público saindo da FCMS para setores específicos da música. Em janeiro de 2024, começou o repasse à Criative Music LTDA-EPP. Em apenas seis meses, a empresa recebeu R$ 610 mil do cofre cultural estadual para o projeto "Clamor Pelo Brasil".

Pouco depois, em março de 2024, ocorreu o evento "Cultural Gospel de MS", parte do chamado "Circuito Cultural Gospel do MS". Segundo reportagens da época, o governo teria gasto quase R$ 3 milhões com uma única empresa de música gospel nesse período. Os números são alarmantes quando somados ao contexto atual: estamos falando de milhões de reais concentrados em poucas mãos, sem transparência competitiva.

Em maio de 2026, o Midiamax apontou outro exemplo: R$ 233 mil investidos em shows pelo estado, mas desta vez usando a figura jurídica da "inexigibilidade de licitação". Essa modalidade é permitida por lei para artistas representados por sindicatos, justificando a ausência de concorrência devido à singularidade artística. No entanto, críticos questionam se esse mecanismo está sendo usado como brecha para favorecer certos grupos.

Contratos polêmicos com artistas sertanejos

A controvérsia não se limita à música gospel. Em 17 de junho de 2026, a Teatrine TV revelou que a FCMS firmou contratos no valor total de aproximadamente R$ 1,512 milhão com sete atrações sertanejas para 2026. Novamente, sem licitação.

O detalhe que chamou atenção foi a discrepância entre o investimento público e a popularidade de alguns desses artistas. A dupla Rodrigo & Thayane, por exemplo, foi citada em publicações sociais como tendo apenas 59 ouvintes mensais em plataformas digitais. Como justificar um fatiamento significativo de R$ 1,5 milhão para artistas com audiência tão restrita? É uma pergunta que ecoa nos corredores do poder em Campo Grande.

Aqui entra a questão central: onde está o interesse público nesses acordos? Se o objetivo era promover cultura, por que focar em nichos religiosos e regionais com tanta exclusividade? E por que evitar a transparência que uma licitação traria?

Impacto na sociedade mato-grossense

Impacto na sociedade mato-grossense

Para os contribuintes de Mato Grosso do Sul, o impacto é direto. Cada real desviado ou mal aplicado em contratos opacos é um real menos disponível para bibliotecas, museus, escolas de arte e projetos comunitários que realmente precisam de apoio. A cultura não deve ser refém de agendas religiosas ou interesses privados disfarçados de iniciativas artísticas.

Especialistas em administração pública alertam que a falta de fiscalização rigorosa cria um ambiente propício para favorecimentos. "Quando você remove a competição do processo de compra, abre espaço para decisões subjetivas", explica um analista da área, que pediu anonimato por receio de retaliação política. "Isso enfraquece a democracia e corrói a confiança nas instituições."

O que vem por aí?

O que vem por aí?

As investigações jornalistas continuam. Até o momento, não há indícios formais de irregularidades judiciais, mas a pressão social cresce. Organizações da sociedade civil já começaram a coletar assinaturas para exigir audiências públicas sobre os gastos da FCMS.

No curto prazo, espera-se que o Tribunal de Contas do Estado realize uma análise mais detalhada desses contratos. Se forem encontradas violações legais, pode haver responsabilização administrativa e até criminal dos envolvidos. Para o eleitorado, isso significa mais vigilância e menos tolerância com práticas que lembram o clientelismo antigo.

Frequently Asked Questions

Quanto custaram os shows da Marcha para Jesus em MS?

O contrato firmado pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) para nove shows da Marcha para Jesus em 2026 totalizou exatamente R$ 1.060.000,00. O pagamento foi realizado diretamente a uma empresa evangélica do Espírito Santo, sem passar por processo licitatório.

Por que a contratação não teve licitação?

A reportagem indica que a contratação foi feita sem licitação formal. Embora existam mecanismos legais como a inexigibilidade de licitação para artistas, neste caso específico não houve menção a essa justificativa, gerando dúvidas sobre a legalidade e transparência do processo.

Quem é a Criative Music LTDA-EPP?

A Criative Music LTDA-EPP é uma empresa que recebeu R$ 610 mil da FCMS entre janeiro e junho de 2024 para o projeto "Clamor Pelo Brasil". Ela faz parte de uma série de beneficiárias de grandes verbas públicas voltadas à música gospel no estado.

Qual o papel do Governo Riedel nessa história?

O governador Reinaldo Azambuja (Riedel) lidera o executivo estadual responsável pela FCMS. As reportagens vinculam sua administração aos gastos elevados com empresas de música gospel e sertaneja, sugerindo uma linha editorial favorável a esses setores durante seu mandato.

Há riscos jurídicos para os contratados?

Até o momento, não há processos judiciais abertos mencionados nas reportagens. No entanto, a exposição midiática aumenta as chances de auditorias futuras pelo Tribunal de Contas, o que poderia resultar em multas ou anulação dos contratos se houver ilegalidades comprovadas.